quinta-feira, 22 de maio de 2014

Flores da memória



Uma das primeiras visões que uma criança camponesa tinha em Duas Pontes, onde passei a infância, eram as flores nas paredes, nos canteiros, nas cercas das varandas, nos caramanchões. Os jardins surgiam das trocas de “mudas” entre os moradores. O ritual de receber a muda ( uma semente, um galhinho, um bulbo, um ramo) preparar a terra, plantar, cuidar e esperar a floração era um modo mágico de alimentar as amizades, os afetos  e o gosto de viver.

Esse jeito de criar jardins eu achava fascinante ( e ainda acho). Assim, em Cantorias de Jardim, meu quinto livro pela Paulinas,  homenageio, em versos, as flores que me viram crescer e me acompanharão pela vida afora. O procedimento poético e a linguagem para compor o ramalhete fui buscar nas  fontes da  tradição oral,  cuja singeleza e brilho faz par com as  flores vivas  da memória.

Cantorias de jardim, de modo lúdico e afetivo, enlaça poeticamente um ramalhete de flores através de poemas inspirados na poesia oral do folclore.
O narrador poético conversa com as flores ( rosa, cravo, lírio, amor-perfeito, margarida, jasmim e demais flores do feixe poético), conta seus segredos e magias e, por vezes, chama o leitor para participar da cena poética, ora ofertando-lhe a flor homenageada, ora propondo um jogo de adivinhação, ora advertindo-o para perceber a flor, tal como faziam os cantores peregrinos e singelos de outrora.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Frutas no pé



    No campo,  antigamente,  muitos quintais eram formados por árvores frutíferas que nasciam , ao acaso, das sementes jogadas aqui e ali, sem intenção de plantio.
    As árvores nascidas deste modo formavam redutos  de sombra e beleza. A casa onde me criei era rodeada de fora a fora por pessegueiros de toda qualidade. Na estação própria, qualquer janela que abrisse dava para os pessegueiros em flor.
    As crianças de Duas Pontes,  naqueles dias tão distantes e quase inacreditáveis para um urbano pós-moderno, só faltavam morar nos troncos das árvores da mata e do quintal à cata dos frutos maduros ( às vezes até dos verdes).
    Crianças e passarinhos auxiliavam o plantio de novas árvores frutíferas no quintal e também na mata. Quando uma pitangueira ficava velhinha, outra, nascida ao acaso,  já começava a dar pintangas deliciosas.
   Pomar de Brinquedo ( Larousse, 2009)  surgiu do desejo de homenagear as frutas que me deram alimento, sombra, e encantamento durante toda a infância. Frutas colhidas no pé, lavadas pela chuva,  perfumadas, doces e suculentas. Divididas com passarinhos e outros bichos que apreciam frutos maduros. Enfim, inesquecíveis frutos da terra tão belos guardados na memória e na poesia.    

Crianças da Escola Hermann Müller, em Joiville/SC, lendo o poema CARAMBOLA do livro Pomar de Brinquedo: