terça-feira, 20 de junho de 2017

Nos moinhos da imaginação


Nos moinhos da imaginação

        por Daniela Bunn
(Doutora em Literatura)


 Moro em moinhos desde que nasci, há 12 anos. Moinhos é um lugar quieto  durante a semana e movimentado aos sábados e domingos por causa da visita das pessoas, de perto ou de longe, que vêm conhecer o moinho d´água, perto do rio, e o moinho de vento do alto do morro. (BOCHECO, 2011, p. 7)

            Dois velhos moinhos contam suas histórias. Com eles, a história de seus moradores e de suas lendas populares. Ao bordar palavras, nesta narrativa que roda feito moinho, Eloí Bocheco, mais uma vez, nos emociona ao falar de amor, de sonhos, de relações familiares que ganham mais vida com as ilustrações de Pedro Zenival. Os moinhos, o de vento e o d´água, além de serem os grandes pontos de referência da cidade, servem também de palco para histórias de fantasmas, causos de assombração, namoros, brincadeiras de crianças.
Leonardo, narrador em primeira pessoa, conta sua história, sua relação com a mãe, doceira, que sonhara em ser aeromoça; com o pai, que “é do tipo que gosta de casar um monte de vezes”; com a vizinha, escritora, e com seu primeiro amor, Natália. O livro fala de relações desfeitas, partidas e reencontros. Os personagens da cidade são bem descritos e caricaturados por Leo. O livro é permeado de cultura, referências  literárias, filosóficas e saberes populares. Doces misturam-se com os versos de Camões, de Fernando Pessoa, de Virgilio, de Tomás Antônio de Gonzaga e encontram-se ainda com Rubem Braga, Elisa Lucinda, Manuel Bandeira, Adélia Prado.
Belas imagens são descritas, como: “soltar a alma pra brincar”, “cultivar palavras em canteiros”, “lugares transbordando histórias vividas”, “guardião de memórias”, “morrer de amor”, expressões que fazem nossa imaginação girar como um moinho. Os ensinamentos da mãe, na cozinha, servem também para a vida, como pergunta Leo, afinal, “A vida é como um docinho coberto de glacê que a gente não sabe o que tem no miolo?” (BOCHECO, 2011, p. 14).
No fim do livro, Bocheco ainda nos presenteia com um belo desfecho cheio de palavras bordadas de sabedoria, rios que correm dentro das histórias e campos de amoras laçadas.
Borda-me o destino em qualquer pano.
(BOCHECO, 2011, p. 64)



Referências
BOCHECO, Eloí. Roda Moinho. Ils. Pedro Zenival. Recife: Cepe, 2011. 68 p.


sábado, 17 de junho de 2017

Novos e velhos ramos, verdes

Resenha de Peter O'Sagae sobre o livro Tá pronto, seu lobo? e outros poemas



O tempo passa depressa, diz um verso de Eloí Elisabet Bocheco – no poema “Uni... Duni... Téia”, publicado em seu primeiro livro de poesia para crianças, com o mesmo título, e que recebi naqueles anos em que me via escondido online com O Caracol do Ouvido. Clique vai, clique vem, na palma da nossa mão, muitas alegrias se desenrolaram. Poucos sabem quanto Eloí foi madrinha das aulas de literatura infantil em minhas andanças no oeste de Santa Catarina, entre 1999 e 2004; poucos sabem da intimidade do nosso primeiro encontro, atravessando doze, quinze horas diretas de conversa admirada à porta da cozinha de sua casa enquanto André cozinhava, Luiz mexia um canto e outro no jardim, na horta, e os filhos iam e voltavam e a gente lá falando livros pelos cotovelos, se encantava.
"O tempo passa depressa...
Só não passa a roda
de bem-querer
e amizade,
brincadeira de
esconde-esconde
com a saudade."
E amizade com Eloí é feita de promessas de continuar um dia, após distância e algum silêncio. Um dia, então, a gente descobre o poema do uni, duni musicado por Priscila Schaucoski e Bruno Andrade, descobre Téia na página de outro livro: TÁ PRONTO, SEU LOBO? com ilustrações de outra amigaluna, a Suryara Bernardi (Formato, 2014). Na dedicatória em letras miúdas, Eloí escreve que o livro é “um feixe poético, formado por novos e velhos ramos – verdes, espero”.


Vou imediatamente inventariando. Das páginas de UNI... DUNI... TÉIA (Papa Livro, 1998), saíram também a antiga flauta floreada, agora “Flauta florida”, e o teimoso “Cavalinho da alvorada”. Do livro Ô DE CASA (Grifos, 2000), o poema “Tá pronto, seu lobo?” que empresta o título à nova antologia e a parlenda “Martina” com suas sementes beijadas de sol. “Posso entrar?” e “Segredos” foram originalmente publicados online pelo Jornal de Poesia, de Soares Feitosa. Ao todo, conto sete poemas que alinhavam a escrita constante de Eloí Elisabet Bocheco, cuja obra poética inspirada nas tradições orais incluem A DE AMOR, A DE ABC (1999), o premiado BATATA COZIDA, MINGAU DE CARÁ no I Concurso Literatura para Todos, do Ministério da Educação (2005), POMAR DE BRINQUEDOS (2009) e CANTORIAS DE JARDIM (2012), recentemente comentado, até chegarmos ao ano de 2014 – e já parece que temos mais dois, três livros de Eloí com poesia para crianças.


Considerando cada livro como um projeto que ladrilha o caminho da autora, o brilho de TÁ PRONTO, SEU LOBO? e outros poemas, perpassa inicialmente os brinquedos encenados através da palavra falada – como as parlendas com perguntas e respostas, os contratos de escolha que se apresentam em meio às cantigas de roda. Deste modo, as perguntas tornam-se chaves grandes, chaves mestras e fundamentais para estabelecer um contato afetivo entre as crianças, nas situações de texto-vida, entre a voz lírica e seus leitores, nas situações de leitura. 


O poema que abre a antologia nos indaga, por três vezes – Posso entrar no seu reino, meu rei? E nossa memória intertextual, do leitor mais novo ao leitor mais velho, pode propor inúmeras respostas, cadenciadas e próximas das possibilidades que Eloí Elisabet oferece... O jogo do faz de conta vem nos levar para o lugar distante dos contos de fadas, para o reino das adivinhas e das tarefas cheias de ardis, do caminho que se inventa com três obstáculos etc. A primeira resposta tirada pelo poema é – 

"Só se ocupar todas
as pausas, reinando
sobre as palavras."

Leitura e reinações aí se equivalem; gramaticalidade e brinquedo, pausas são reticências de coisas que nunca terminam ou parada para o outro continuar? O lobo, cantado antes de começar a brincadeira de pega-pega, no jogo do livro, é um lobo azul de gravata e chapéu de Fernando Pessoa, vaidoso, alguém quase a perder a hora para a festa no céu que começou faz séculos...


A criação poética de Eloí Elisabet Bocheco vem das tradições orais, das raízes da fala até o ouvido, mas vai também às páginas da literatura infantil e universal. Nenhum escritor, nenhum poeta pode alegar, perante seus leitores, ignorância da existência dos livros. A isso se diz consciência de metalinguagem, porque os textos novos sabem ler os textos antigos. E então, qual a melhor marca da literatura para crianças? Jogar com os segredos, com a transparência da leitura!


Dos poemas novos – ao todo, catorze – “O que é que eu faço?” – que Suryara ilustrou com olhos de sonho, cinza, jeans rosa pespontado, amarelo e cabelo no gramado – é uma canção límpida e preguiçosa ao sol da tarde. Assim termina:
"Um arco 
de neblina 
para o cabelo 
da menina."

Depois das brincadeiras, poesia é devaneio. Eis a segunda marca desta antologia e encontraremos Eloí envolvida com descrições da natureza em quadros coloridos e canoros, festejando peixes, lagartos, fios prateados, renda, efeitos, infância, meses do ano, como se tudo pertencesse, de forma ininterrupta, ao mesmo céu. A riqueza de seus poemas está bem menos nas coisas do pensamento e reside, sem categorias, no toque sensível dos olhos e das mãos. Não leio, nem ouço símbolos. Pego extravagâncias, como um lago que se muda de lugar, pirilampo que esconde queijo no mato, uma sombrinha feita de flores, gato que engole letra sem mastigar – tudo isso e outras coisas mais – como coisas mais reais, objetos do conhecimento que a imaginação verbal pode manipular. E isso, esse processo, transmite uma sensação de alegria e leveza. Por isso, aqui temos poesia para crianças.


Eloí Elisabet Bocheco toma algo de José Paulo Paes, Elias José e Sérgio Capparelli, hoje parece mais liberta de Cecília Meireles ou Vinícius de Moraes, como li nos seus primeiros livros. Assim, com outra chave, entendo, quando minha amiga escreve avisando o feixe que abraça novos e velhos ramos – verdes, espero, ela disse – o significado que sua obra possui. As sementes começaram a brotar faz tempo e cresceram. Cresceram, verdejaram, deram perfume, grãos e frutos: velhos versos que ainda podem ser colhidos com frescor por alguém que não conheça este ou aquele poema, versos novos ainda verdes semeando esperança. 
“Se a poesia bater à porta,
abra como a um amigo.
Poesia é luz,
alimento e abrigo.”

Resenha publicada no site Dobras da Leitura no endereço eletrônico: